10.5.05

Resposta da Liliane ao Desafio I

Arcano XIII


Então, era isso.
Abriu os braços, entregando-se à carícia do vento, fechando olhos e ouvidos para o caos urbano que brilhava e urrava, metros abaixo de seus pés.
Era assim que acabava.

Acordara em um resoluto ponto final, isso cerca de dez horas antes, e empreendera todo o tempo com os preparativos: empacotou alguns pertences, deu um telefonema, escreveu sete cartas (apesar de, no fim das contas, só ter passado um bilhete por baixo duma porta), pediu para a vizinha tomar conta do cachorro, com o cuidado de não especificar até quando.
A princípio, pensou que fosse levar um dia - ou o que restava dele - de rei. Com um mínimo de arrependimento, constatava agora que não gastou todo o dinheiro que tinha guardado, não comeu até explodir, sequer beijou uma desconhecida. Era certo que, caso o tivesse feito, seria uma alemã, ou qualquer outra sorte de turista loura sem qualquer noção básica da Língua Portuguesa. Um sorriso brincou em seus lábios, ao pensar em que tipo de impressão deixaria na moça incauta. Não tardou a deixar as fantasias germânicas de lado; elas não faziam seu tipo, de qualquer forma.

Assim que a mente se viu livre, tascou-lhe uma bofetada de realidade na fuça. Veio a vertigem, mas não pela altura - era a gravidade, a urgência. Sentiu medo do porvir, um tremor repentino tomando seu corpo. Sentou-se depressa, uma das mãos buscando apoio no chão.

Era hora de começar.

A mochila ao seu lado estava gasta ao extremo; fora sua companheira por todo o tempo na faculdade. E, já que seria um ritual, julgou apropriado escolher elementos com algum simbolismo.
O primeiro item a sacar foi um pequeno pote etiquetado. Aberto, revelou delicadas cápsulas (metade branca, metade vermelha), e seus dedos correram por elas até escolherem uma. Olhos opacos perdidos em algum lugar - provavelmente dentro de si -, e estourou o comprimido, espalhando pelo ar o conteúdo: sua areia do sono. Despejando em sua palma direita tudo que havia no recipiente, lançou aquelas graciosidades coloridas para longe, para a cidade. Sabia que ela não dormiria jamais. Por sua vez, ele estava decidido: não precisaria mais delas.

Seguiu em frente, descartando mais e mais pequenas coisas, uma por vez: alguns outros remédios, chaves de casa, figa, santinhos da carteira (superstições que não eram suas), milhares de escritos, ingressos. Emblematicamente, esfarelou um Biscrok. Foi se esvaziando, peças-chave do seu passado e seu presente sendo eliminadas; achou que seria uma bela forma de celebrar o que aquela noite lhe traria. Livrou-se de tudo que carregara consigo, tudo que o amarrava àquele mundo.

A última etapa foi uma foto. Desafiou-se a olhar no fundo dos olhos azuis que o encaravam, e concluiu que aquela passividade expressa neles o irritava. Quis apagar de suas lembranças a doçura do sorriso, o rosto magro, a fragilidade que emanava de cada poro. Eles sabiam o quão culpado ele era.

O anjo cândido se desfez em mil pedaços em chamas, que voaram rumo ao oblívio.

Só precisava esperar mais um pouco.

Observou a cidade a esmo, olhar vagando pelas luzes faiscantes, pela vida artificial que se espalhava feito uma praga. Antigamente, a vista daquele lugar o maravilhava; tempos depois, o enojava. Agora, só apatia. A magia inebriante acabara, como se alguém tivesse revelado o grande truque por trás daquilo tudo. Simplesmente não tinha mais graça.

Foi então que finalmente teve certeza do que estava fazendo - o que, lógico, decretou que não havia mais volta. Aceitou o fato, o fardo e respirou fundo, buscando forças para levantar. Surpreendeu-se ao ver o quão leve se sentia, o vento ainda mais forte fazendo sua jaqueta inflar. Esticou os braços para o firmamento, onde uma ou outra estrela esforçava-se para brilhar, alongando os músculos. Girou pescoço, ombros - a culpa não pesava mais sobre eles -, estalou os dedos. Olhou para baixo e não havia mais tontura. Os pés, com um que de brincadeira, experimentaram, um por vez, o limiar que separava o concreto do vazio. Sem dúvida, aquele também era o lugar certo para aquele momento; afinal, aquilo tudo tivera início ali.

Passos ecoaram atrás de si, mas não se deu ao trabalho de olhar.
Sabia que era a hora da queda.

Mesmo por cima do tecido grosso da blusa, pôde sentir o calor das mãos cor-de-bronze que corriam por seu peito, as unhas num arranhão insinuante, um ligeiro tilintar acompanhando o movimento. Achou graça dela não sentir medo algum. Respondeu ao abraço, sem deixar a borda.
A serpente (pontual como um demônio) sibilou a oferta em seu ouvido. Ele já havia vendido sua alma a tempos - na verdade, a trocara por um farto decote e uma fenda generosa, que tão bem acompanhavam aquela representante direta de todo e qualquer pecado.

Tudo que precisou fazer foi pegar o chaveiro de metal, no qual pendia apenas uma chave.

Assinou o contrato, sem arrependimentos; seu velho Éden perdera o apelo.

6 Comentários:

Anonymous Amanda Meirin disse:

Sem palavras sobre o texto. Qualquer comentário seria inútil,por mais elogioso que seja. Afinal, são raros os que conseguem transmitir pensamentos simultâneos a ações curtas e entrecortadas, como as centenas de devaneios que invadem nossas mentes nos poucos segundos entre um soluço e a primeira lágrima. Considerem-se "favoritadas", Trovadoras de Minerva.

5/11/2005 10:13 AM  
Anonymous Amanda Meirin disse:

Só para corrigir o nome do meu blog...

5/11/2005 10:15 AM  
Blogger Aline B. disse:

Sim, eu também tive de reler o final. (Nós adoramos enganar o leitor, né, maninha? :D)

A coisa da "areia do sono" foi uma metáfora ótima (e gerou uma imagem linda, também)! Curioso como você sequer menciona os cabelos do "anjo", mas a gente automaticamente enxerga uma pessoa loirinha feito as germânicas que, afinal, nunca fizeram o tipo dele.

Na minha interpretação, a chave é de um quarto de motel. E eu insisto que tenho pena do cachorro! :D

5/12/2005 11:10 PM  
Blogger Mari DeLarge disse:

...

Também não tenho palavras à altura... Talvez "horrorshow" seja a que mais se aproxime, mas ainda fica longe. XD

Sabe que sempre vejo um detalhe novo no seu texto a cada vez que leio? Isso é perfeito!!!!!! ^^

Bjos bjos bjos!

5/13/2005 7:53 PM  
Blogger Paty disse:

É bem a tua área isso de enganar os outros, né? :D E eu também caí direitinho!

Já falei que amo suas descrições? Detalhadas na medida certa, sem se perder em pormenores. Também foi ótima a imagem do sujeito jogando as coisas do alto do prédio. Bonito e singelo.

No mais, a coitada da ex-mulher deve ter posto anúncio de "Desaparecido" pro sujeito e está esperando por ele até hoje! Por um lado, eu o acho um canalha por ter sumido desse jeito; por outro eu o admiro: recomeçar do zero não é pra qualquer um.

P.S: eu também achei que a ex-mulher era loira! E o cachorro provalvemente ficou em boas mãos :D

5/14/2005 1:47 AM  
Blogger MôNiCa disse:

Sempre a capacidade de surpreender! E durante o texto, ninguém percebe o verdadeiro sentido da coisa, a gente sempre tem que ler os seus textos novamente pra entender o que realmente aconteceu. E a mulher, a essa hora, coitada! Ficou de pista! Perdeu pra serpente...
Bjs

5/14/2005 6:52 PM  

Postar um comentário

<< Home