26.6.05

Resposta da Mônica ao Desafio V

A Day in the Life


Tá... tudo bem, aquele era mais um momento de reflexão em sua vida, e ele detestava isso. Ele tinha para si que instantes como aquele eram como discutir a relação, coisa que nenhum homem (e ele, sem dúvida, pertencia a esse grupo) gostava de fazer. Só que tinha um adendo: a discussão era com ele mesmo. O que tornava tudo muito pior.
Havia cinco minutos que a mulher que ele acreditava ser "a da sua vida" tinha ido embora, levando o seu filho e o seu desprezo. Detestava pessoas que o enganavam, e ela o enganou. Dissera que o amava e que passaria o resto da vida com ele. Até que apareceu um vagabundo qualquer.
Ok, ok, tudo era melhor assim. Ele estava livre novamente para amar. Recostou-se na poltrona e abriu um ligeiro sorriso. Ela tinha levado tudo embora, não haveria nenhuma lembrança dela a qual ele pudesse chorar. É... tudo tinha melhorado consideravelmente.
Foi quand olhou para o armário. Fotos dela. Tirou todas, rasgou-as e jogou no lixo. Mas não com tristeza, era uma vida nova que ia começar. E, quando voltou para a sala, feliz (muito feliz) por ter se livrado daquela mulher, viu que ela tinha esquecido algo. Aproximou-se: era um CD dos Beatles.
Ele detestava Beatles. Ela amava (ele lembrava de quando tinha dado o CD de presente para ela; nunca tinha visto tanta felicidade em um olhar). Havia dez anos, eles tinham se conhecido ao som de "Twist and Shout" em uma festa à fantasia cujo tema era anos 60.

Come on and twist a little closer now
And let me know that you're mine


E ela o beijou. E ela era dele.
Em um impulso, ele colocou o CD no rádio, e começou a se lembrar de suas vidas juntas, das boas lembranças... É, ela podia ser uma vadia, mas o tinha feito muito feliz. Ele se sentia diferente perto dela. Aumentou um pouc o som do rádio. Faixa um: "It's Only Love".

It's only love and that's all
Why should I feel the way I do?
It's only love and that's all
But it's so hard loving you

So hard
, ele pensou. As brigas começaram cedo, mas sempre terminavam do melhor modo possível.

Is it right that you and I should fight
Every night?


"Não, não, de forma alguma". Que música deprimente, falava demais da vida dele... apertou o skip com força. Pela primeira vez na vida sentiu a força que aquela mulher tinha sobre ele. Ele a amava, e não era pouco, mas ela não merecia, jamais daria a ela o gosto de saber disso. Rádio tocando.

Here I stand, head in hand
Turn my face to the wall
If she's gone, I can't go on
Feeling two-foot small
(...)
Hey, you've got to hide your love away


Mas que inferno! Essa droga desse grupo que fica cantando sua vida! Odiava-os mais que tudo, mais até do que aquela maldita mulher! Tirou CD sem mesmo dar stop e colocou-o na caixa. Encaminhou-se para a lixeira; aquilo deveria ter o mesmo destino de todas as lembranças dela. Raica, raiva intensa. Foi quando seu olhar parou em uma música no encarte do CD. Sim, essa seria a música de sua vida.

Seems my love is up
And has left you with no warning
But it's not always going to be this way
All things must pass
All things must pass away


É... era essa música que ele precisava ouvir. E ele guardou o CD de volta no armário.

2 Comentários:

Blogger Paty disse:

Narrativa vertiginosa, com destaque para o estilo ciclotímico, bem pertinente a quem acaba de sair de um relacionamento: o rapaz vai rapidamente da raiva ao alívio por ter sido deixado e logo se põe a construir sua nova vida, até concluir que realmente amava a mulher e, por fim (mas não por último), compreende com serenidade que o turbilhão de emoções há de passar, como sói acontecer com tudo na vida.

Impressionante como alguém que não gosta dos Beatles usou várias músicas, todas encaixando-se perfeitamente aos momentos e sentimentos em questão! Respondeu ao desafio com louvor!

6/26/2005 9:13 PM  
Blogger Mari DeLarge disse:

E viva o poder dos Beatles!!!! \o/

Poder sim. Teu personagem começa orgulhoso, querendo se convencer de que odeia a vadia da ex-mulher, muito seguro de tudo isso. Mas, eis q, juntando as lembranças dela pra dar cabo de todas, encontra um CD dos Beatles e coloca-o para tocar. As músicas, insistentes em cantar a vida dele, o fazem ver o q é óbvio: q ele ainda ama a mulher. E tua narração impressiona por "vestir" o personagem, já q é altiva no início e dá o braço a torcer no fim. Horrorshow! *_*

Pra quem não gosta de Beatles e reclamou qdo eu propus o desafio (hehehehehe, eu sou mto má. XD), vc se saiu melhor q a encomenda, juntando várias músicas em uma história só. XD

Parabéns! Bjs bjs bjs!

7/06/2005 2:24 PM  

Postar um comentário

<< Home